II Seminário Agosto das Infâncias em Barueri destaca responsabilidade coletiva na garantia dos direitos das crianças

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Conduzido pela Secretaria de Educação de Barueri, o Centro de Referência pela Primeira Infância (CRPI) realizou, no dia 17 de agosto, o II Seminário Agosto das Infâncias, com o tema “O encontro que nutre: responsabilidade coletiva, espaços de convivência na construção das múltiplas infâncias”. O encontro reuniu autoridades municipais, representantes do Legislativo, profissionais que atuam com crianças e convidados para discutir o papel da sociedade na garantia dos direitos e no desenvolvimento integral na primeira infância.

Na abertura, a diretora do CRPI, Neusa César, destacou que cuidar da infância exige mais do que oferecer proteção e atendimento. “Convidamos cada um de vocês a desarmar os olhares e abrir os corações para as infâncias. Aqui no CRPI, nossa prioridade absoluta é o desenvolvimento integral e integrado das nossas crianças desde os seus primeiros anos de vida. Acima de tudo, buscamos espaços onde cada criança seja respeitada, acolhida, sinta segurança e se reconheça amada”, afirmou.

ANTES DE FALAR SOBRE INFÂNCIA, É PRECISO BRINCAR

Como parte da proposta dos encontros promovidos pelo CRPI, a programação começou com uma vivência lúdica voltada aos adultos. A atividade foi conduzida pela professora de musicalização infantil Gil Monteiro, que utilizou materiais simples, como cápsulas de café, garrafas plásticas e palitos com fitas de papel espelhado, para criar sons, movimentos e cores.

Ao som de “A Roda”, de Marco Aurélio Querubim, a experiência colocou os participantes em contato com uma dimensão muitas vezes esquecida na rotina adulta: o brincar. A proposta também reforçou que, para compreender melhor as necessidades das crianças, é necessário que os próprios adultos estejam dispostos a experimentar outras formas de perceber, interagir e ocupar os espaços.

INFÂNCIA NÃO É ESPERA PELO FUTURO

A palestra magna foi conduzida pela educadora Letícia Zero, idealizadora e coordenadora da Secretaria Executiva da Aliança pela Infância no Brasil. A partir da carta de princípios da organização, ela trouxe para o centro da discussão o direito das crianças de viver plenamente o tempo da infância.

Entre os princípios apresentados estão o direito ao brincar livre, ao erro, ao contato com a natureza e ao desenvolvimento humano integral. “As crianças têm o direito de sonhar e crescer em seu próprio tempo, de errar e ser desculpadas, de ser protegidas da violência e da fome […] de estabelecer viva ligação com a terra, com os animais e com a natureza”, afirma um trecho da carta.

Letícia chamou a atenção para uma questão que precisa ser enfrentada: garantir alimentação, moradia e segurança é indispensável, mas não pode representar o limite daquilo que se oferece às crianças. “A luta não termina quando a gente consegue garantir a efetivação do direito básico. As crianças têm o direito de ir além. Têm o direito ao encantamento”, afirmou.

Para a educadora, arte, imaginação, natureza e brincadeira não são elementos acessórios. Fazem parte de uma infância que precisa ser vivida com tempo e condições para que a criança explore, crie, erre, tente novamente e descubra o mundo. A infância é responsabilidade de todos Outro ponto destacado durante a palestra foi a responsabilidade coletiva pela infância. A proteção e o desenvolvimento das crianças não devem ser atribuídos somente às famílias ou aos profissionais que trabalham diretamente com elas. “Mesmo que eu não tenha um filho, mesmo que eu não trabalhe diretamente com crianças, ainda assim a criança é uma responsabilidade minha. A infância é o traço comum que nos une”, ressaltou Letícia.

A reflexão amplia o debate para os espaços de convivência. A forma como os adultos organizam ruas, escolas, praças, serviços, equipamentos públicos e relações sociais também interfere na maneira como as crianças vivem e se desenvolvem.

OLHAR PARA A CRIANÇA PELO QUE ELA PODE FAZER

Letícia também questionou uma visão que enxerga a infância principalmente a partir das faltas e vulnerabilidades. Identificar riscos e garantir proteção é fundamental, mas isso não deve reduzir a criança àquilo que ela não tem.

Crianças de diferentes realidades sociais possuem capacidade de criar, participar, propor, questionar e transformar os espaços onde vivem. Por isso, reconhecer a criança como sujeito de direitos significa considerar sua voz e sua capacidade de participação no presente.

“A criança não é um futuro adulto, não é promessa: ela é presente. O tempo da criança é agora. Ela vai ser criança por cerca de 12 anos; o resto da vida ela tem para ser adulta”, afirmou.

A fala também faz um contraponto à ideia de que investir na infância se justifica apenas pelos resultados que poderão aparecer no futuro. Para a educadora, a criança não deve ser vista como uma promessa de produtividade ou como alguém que precisa ser preparada o mais rápido possível para a vida adulta. O desenvolvimento precisa fazer sentido enquanto a infância acontece.

RESPEITAR O TEMPO TAMBÉM É CUIDAR

Nesse contexto, o tempo aparece como um dos principais direitos da infância. A criança precisa de espaço para repetir, experimentar, errar, mudar de ideia e criar sem que cada atividade precise obedecer ao ritmo acelerado dos adultos.

O papel do adulto, segundo Letícia, não é conduzir cada passo ou corrigir continuamente, mas criar condições para que a criança explore o mundo com segurança. Isso inclui garantir espaços de convivência que acolham diferentes corpos, culturas, vozes e maneiras de ser.

O brincar livre ocupa lugar central nessa perspectiva. Mais do que passatempo, é uma forma de participação. Ao brincar, a criança escolhe, propõe, negocia, escuta, discorda e constrói relações. “O encantamento é a forma que a criança tem de dizer sim ao mundo. Brincar livre é a primeira experiência de cidadania das crianças. Ao brincar, elas negociam, escutam, discordam e propõem. Brincar é a forma como a criança participa da sociedade hoje”, destacou a educadora.

PROGRAMAÇÃO SEGUE ATÉ 21 DE AGOSTO

Na sexta-feira, 21 de agosto, às 18h, o Centro de Aperfeiçoamento de Professores (CAP) recebe apresentações culturais de Filipe Macedo, conhecido como “Passarinho”, das crianças, das professoras do CRPI e da Secretaria de Cultura, além da cantora Marília Lopes.

O CRPI oferece atendimento gratuito a gestantes, crianças de zero a seis anos, familiares e profissionais. Localizado na Rua Terra, 326, no Jardim Tupancy, o espaço promove atividades voltadas ao desenvolvimento infantil, à convivência e ao fortalecimento de vínculos, com vivências lúdicas, contação de histórias e espaços sensoriais. A iniciativa reforça que cuidar da primeira infância também significa garantir experiências que estimulem a criança a brincar, criar, conviver e se desenvolver no presente.

Foto: Ana Guice/Secom Barueri

 

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